Atenção: este texto contém spoilers completos do final de Backrooms: Um Não Lugar.
Depois de anos transformando uma creepypasta da internet em uma das maiores séries de horror do YouTube, Kane Parsons finalmente levou o Backrooms para o cinema. E o resultado foi além de qualquer expectativa: o filme da A24 virou um fenômeno de bilheteria e, no caminho, entregou as respostas que os fãs esperavam há anos. Mas com Parsons, cada resposta vem embrulhada em uma nova camada de mistério.
Vamos destrinchar o que o final realmente significa.
O que são os Backrooms
A grande revelação do terceiro ato é também a mais perturbadora. Clark, vivido por Chiwetel Ejiofor, descobriu uma passagem para outra realidade dentro da própria loja de móveis. Quando sua terapeuta, a Dra. Mary Kline, interpretada por Renate Reinsve, entra no lugar atrás dele, Clark finalmente explica o que são aqueles corredores amarelos infinitos: “Todo lugar que já existiu.”
Em outras palavras, os Backrooms funcionam como uma memória do mundo real. Cada local que já existiu na Terra tem um correspondente lá dentro, de um único cômodo a cidades inteiras. Conforme a memória desses lugares vai desaparecendo no mundo real, eles também perdem as características no Backrooms, até sobrar apenas as paredes amareladas e vazias. Não é um lugar. É o esquecimento ganhando forma.
O segredo das Still Lifes
Para provar o ponto, Clark mostra a Mary o que são as Still Lifes, aquelas criaturas humanoides deformadas que habitam os corredores. Cada uma delas tem um correspondente humano no mundo real. A forma distorcida é como aquela pessoa é lembrada dentro do Backrooms, à medida que a memória dela se apaga.
As Still Lifes não sentem dor, não têm consciência, apenas existem. A única função delas parece ser impedir que as pessoas saiam, o que normalmente termina em uma morte violenta. Algumas, porém, têm mais autonomia que outras. É o caso do “Capitão Clark”, a versão Still Life do protagonista, que demonstra raiva ao ver Mary e acaba devorando o Clark real, da mesma forma que o próprio Clark pretendia comer outra Still Life.
Esse momento carrega o peso simbólico de todo o filme. Ser devorado pela própria versão distorcida representa exatamente o que acontece com quem se recusa a encarar as próprias falhas. Você é consumido por elas.
Por que Mary sobrevive e Clark não
Aqui está o coração emocional da história. Tanto Clark quanto Mary carregam traumas que nunca conseguiram superar. A diferença é o que cada um faz com isso.
Clark se entregou ao Backrooms. Encontrou no lugar uma forma de enterrar a culpa pelo casamento fracassado e pelas más escolhas da vida, em vez de enfrentá-las. Mary, por outro lado, foi obrigada a lidar com o próprio passado de um jeito visceral.
A mãe de Mary, com problemas mentais e apavorada com a possibilidade de perder a casa, trancou a filha ainda criança e nunca a deixou nem olhar pela janela. Mais tarde, a mãe foi internada em um hospital psiquiátrico, e o filme dá a entender fortemente que foi a própria Mary, ainda menina, quem provocou isso. O único objeto que restou dessa relação é um molde de concreto com as mãos das duas, e é justamente ele que salva Mary no confronto final contra o Capitão Clark, dentro de uma recriação da loja de móveis.
Mary sobrevive. Mas o final dela é amargo.
O papel da Async e a deixa para uma sequência
Mary é resgatada por pesquisadores da Async, uma empresa que estuda os Backrooms. O problema é que a salvação vem com um preço. Ela acaba presa em uma instalação contra a vontade, sob o disfarce de estar “sendo cuidada”, exatamente o destino que ela mesma havia imposto à própria mãe. O ciclo que ela descreveu no próprio livro, de repetir as mesmas escolhas até criar um padrão impossível de quebrar, se fecha sobre ela.
Dentro da sede da Async, Mary vê o Capitão Clark capturado e sendo examinado. Ela é interrogada por Phil, vivido por Mark Duplass, um pesquisador que está mapeando os Backrooms e que revela um detalhe inquietante: portas estão aparecendo por toda parte, e a Async tenta entender como e por quê. O filme então corta para uma réplica da sala de interrogatório dentro do Backrooms, completa com uma Still Life da própria Mary.
A Async só é apresentada de verdade no final, o que deixa claro o plano de Kane Parsons para o futuro. O diretor já confirmou que pensa em sequências, e o filme mantém perguntas suficientes no ar para sustentar uma franquia inteira.
O que o final realmente quer dizer
No fim das contas, Backrooms: Um Não Lugar é menos sobre corredores amarelos e mais sobre trauma. Sobre como as pessoas lidam com a culpa, com o medo e com as escolhas que se repetem até virarem prisão. Clark se deixou consumir. Mary lutou e sobreviveu, só para descobrir que escapar do labirinto físico não significa escapar do labirinto interno.
É esse tipo de profundidade que separa o filme de um terror comum, e que explica por que ele conquistou tanto a crítica quanto o público.
Onde assistir Backrooms
Backrooms: Um Não Lugar está em cartaz nos cinemas brasileiros.